Armeiro vende fuzis falsificados a traficantes desde 2018

Desenho de caveira é uma marca do falsificador, 
dizem investigadores. Divulgação

Fuzis pirateados são imitações do Colt americano. Dois deles foram apreendidos na Vila Cruzeiro, em operação que deixou nove mortos

Rio - Um armeiro clandestino tem enganado traficantes de drogas do Rio com fuzis falsos há pelo menos quatro anos. Relatórios da Polícia Civil aos quais O DIA teve acesso, com exclusividade, mostram que pelo menos 24 armas, apreendidas desde 2018 com o logo americano Colt são réplicas grosseiras da marca. As últimas apreensões ocorreram na Vila Cruzeiro, Zona Norte do Rio, em fevereiro, onde nove criminosos morreram em confronto com a Polícia Militar e a PRF (Polícia Rodoviária Federal). Na ocasião, sete fuzis foram apreendidos, sendo dois falsificados Colt.

"O fuzil da marca Colt é um dos mais procurados, custa no mercado negro cerca de R$ 60 mil. Acredito que a falsificação seja feita para valorizar a arma e facilitar a venda", afirmou o delegado Rodrigo Barros, titular da Desarme (Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos). Barros é responsável pelo rastreamento das armas.

As falsificações foram atestadas por laudos do ICCE (Instituto de Criminalística Carlos Éboli). Neles, peritos transcreveram os erros de grafia de palavras gravadas nos fuzis: o nome da cidade onde a arma é fabricada se chama Hartford, capital do estado americano Connecticut. Nos fuzis estão grafados 'Hardford'. Outro erro é a grafia de 'carbine' (em inglês, carabina); nas armas essa palavra está escrita como 'carabine'.

 Delegado Rodrigo Barros, titular da Desarme, é o responsável pelo rastreamento das armasCléber Mendes

 "Trata-se de 01 (uma) arma de fogo do tipo fuzil, plataforma "AR", réplica do modelo M4 Carbine (Colt), ostentando inscrições sem característica de originalidade. (...) Por tratar-se de réplica, a numeração de série ostentada não é fidedigna", diz trecho do documento assinado pela perita criminal Tatiana Barbosa.

Durante investigações da Desarme, ainda em 2018, fuzis com as mesmas características de falsificação foram identificados. Na época, a especializada era comandada pelo delegado Fabrício Oliveira, atual coordenador da Core. Na ocasião, um relatório foi elaborado sobre a apreensão de 31 fuzis confiscados em duas ocorrências. Desse total, 22 eram Colt falsificados, com os mesmos erros dos encontrados na Vila Cruzeiro.

"As características das gravações e inscrições nos fuzis de ambas as apreensões, possuem similaridades e características que permitem concluir que foram montados pela mesma pessoa ou organização", diz trecho do documento, assinado pelos policiais Manoel Lage e Luís Renato Campos.

Caveira e bandeira com desafios: outras marcas do armeiro

Tanto nas armas apreendidas em 2018, quanto nos fuzis de fevereiro deste ano, o símbolo de uma caveira foi encontrado, o que seria mais um indício de pertencer ao mesmo armeiro. Segundo a Desarme, o desenho deriva dos chamados ‘morale patches’, que são insígnias customizadas utilizadas por tropas norte americanas em combate e até mesmo no meio policial americano. No entanto, não são originais de fábrica.
Em um dos fuzis há uma bandeira americana desenhada com a inscrição ‘Come and take it’, que significa ‘Venha e pegue-o’, em tradução livre, sendo um “claro desafio às forças policiais”, de acordo com o documento da Desarme.


Em relação às primeiras apreensões, elas datam de 2018 e foram encontradas em um intervalo de pouco mais de um mês. A primeira apreensão ocorreu durante uma operação policial conjunta com PRF em 18 de janeiro daquele ano, na Rodovia Presidente Dutra. Na ocasião, foi preso um militar do Exército, identificado como Renato Borges Maciel, que fazia o transporte de 19 fuzis e 41 pistolas, da cidade de Foz de Iguaçu, fronteira com o Paraguai, até o Rio de Janeiro. Pouco mais de um mês depois, na mesma rodovia, foram apreendidas, em nova operação policial conjunta com a PRF, 12 fuzis e 33 pistolas.


Ainda de acordo com o relatório, o armeiro, apesar de falsificar os fuzis, grava números de séries diferentes a cada fabricação. E, assim, “é possível ter um indício de que 59 fuzis foram produzidos em um intervalo de tempo de 39 dias”.

O fato das armas serem falsificadas não diminui o poder bélico das mesmas, já que o armeiro faz customizações que tornam a arma até superior às utilizadas pela polícia. É o que aponta trecho de um
relatório da especializada. “(alguns fuzis) apresentam componentes e peças mais modernas e mais  adequados a operações urbanas, além de dispararem em regime de tiro automático,  gerando um previsível desequilíbrio de forças quando em confrontos com criminosos, em desfavor das forças públicas”. 

As outras armas apreendidas na Vila Cruzeiro, de acordo com os laudos, também não são originais, mas foram feitas de peças diferentes de fuzis. Por isso, são apelidadas de armas ‘Frankenstein’. “Tem um AR que foi montado a partir de partes que podem ser encomendadas até por metalúrgicas. Há projetos disponíveis na internet”, analisou Vinícius Cavalcante, especialista em armas. A outra possibilidade, de acordo com a Polícia Civil, é da arma ter sido montada nos Estados Unidos, onde a compra de peças separadas é autorizada, e  enviada ao Brasil.

O Dia

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