Família pede reabertura de investigação de incêndio que matou professora em Rio das Ostras: ‘Queremos justiça por Jamille’

Jamille Suarhs, de 39 anos, vítima de incêndio em casa 
Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Prima da vítima, Paola Guilherme, diz que encontrou vários erros na condução do caso e que acredita em feminicídio. Esperança era que professora pudesse dar o depoimento e explicar o que houve, mas depois de cinco meses internada com 60% do corpo queimado, ela morreu no dia 29 de janeiro.

A família e os amigos da professora Jamille Guilherme Suarhs, de 39 anos, não se conformam com sua morte. No dia 22 de agosto de 2021, ela foi retirada de casa por um vizinho com o corpo em chamas, ficou cinco meses internada no Hospital Alberto Torres, em São Gonçalo, e morreu no último dia 29 de janeiro.

Além da perda, eles não se conformam com os bastidores da história, que nem chegaram a ser investigados por erros ou omissão.

Quem denuncia é a prima de Jamille, Paola Guilherme, que esteve no local e acompanhou todo o sofrimento da prima.

“Quando soube do que houve, saí do Rio, onde moro, e fui para Rio das Ostras para buscar as filhas da Jamille e ver como ela estava. Quando a vi no hospital, fiquei muito assustada. Ela tinha toda a parte superior queimada e estava muito mal”, diz Paola, que imaginou que a casa da prima tivesse sido destruída por um incêndio.

Para a surpresa de Paola, ao chegar ao local, tudo já estava limpo, lavado e apenas o quarto da prima tinha sinais de incêndio.

“Vizinhos disseram que o pai do Emir, o ex-companheiro dela, tinha ido cedo ao local e limpado tudo. Eles também contaram que, no dia do incêndio, o Emir estava na casa, que ouviram gritos o dia todo e que, em dado momento, um grito chamou mais atenção de um vizinho. Ele foi ver e já encontrou a casa pegando fogo. Ele entrou, tirou minhas duas sobrinhas do quarto e voltou para pegar a Jamille que estava com parte do corpo em chamas. O Emir estava no local e não fez nada. Saiu com mãos e outras partes do corpo, da cintura pra baixo queimadas, nas nada como a minha prima”, conta.

Casa de Jamille: móveis chamuscados e chão limpo 
Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Parte mais destruída da casa era o colchão em que Jamille 
estava Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Paola disse ainda que o vizinho que fez o socorro deu o mesmo depoimento na polícia.

Outro detalhe do caso que chamou atenção da família foi o fato do Corpo de Bombeiros não ter feito um registro de ocorrência na polícia.

“O certo seria eles isolarem o local e aguardar a polícia chegar. Mas fizeram apenas um registro de acidente doméstico. Um agente me falou reservadamente que no dia eles estavam com muitas ocorrências e não podiam esperar a polícia”, dia Paola que, sem o registro do Corpo de Bombeiros, viu o caso ser tratado de outra forma na 128ª DP, em Rio das Outras, onde o caso foi registrado.

Ao tentar buscar o registro, ela soube ainda que o pai de Emir já tinha ido ao local para pegar o mesmo documento. Ele também esteve na UPA em que Jamille foi primeiramente atendida. Por causa dessas interferências, eles solicitaram uma medida protetiva, que foi atendida na época.

Medida protetiva a favor de Jamille 
Foto: Reprodução

“A polícia teve boa vontade, foi ao local, tentou fazer perícia, mas já encontrou tudo limpo. Não havia o que atestar. Aí juntou com o atestado de acidente doméstico dos bombeiros e alegaram que não tinham base para oferecer uma denúncia”, diz.

De acordo com a família da vítima, Emir Moura Teixeira, o ex-companheiro de Jamille, também prestou depoimento na polícia, mas disse que não se lembrava do que houve no dia do incêndio. Disse que estava dormindo e, quando acordou, a ex-mulher estava em chamas.

“Será que não é estranho um homem passar o dia todo gritando em uma casa e sair só com as mãos queimadas e a minha prima daquele jeito? Minha prima ia precisar de enxerto nos braços, metade da cabeça dela não teria cabelo porque queimou, uma das orelhas derreteu. Não é estranho uma pessoa sair assim e a outra só chamuscada? Nem voltar para salvar as filhas, ele voltou. Se não fosse o vizinho, não sei o que teria acontecido”, diz.

Jamille em foto com Emir e as filhas: meninas foram 
salvas por vizinhos — Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Amiga de Jamille há mais de 20 anos, Simone Ferreira levanta um outro medo da família, o de que Emir possa requerer a guarda das filhas com Jamille.

“Eles nunca foram casados, nem ele nunca deu nada para as meninas. Mas é pai delas. Ele sempre foi muito estranho, fechado, isolado. Acredito que a Jamille ficou com ele por causa de uma dependência emocional. Ela era uma pessoa discreta, generosa, trabalhadora, buscava sempre o melhor para as filhas. Não merecia isso. Queremos justiça por Jamille”, diz.

Polícia tentou ouvir Jamille no hospital, segundo a família

Segundo Simone, a polícia tentou ouvir Jamille no hospital por meio de sinais com os olhos, já que a professora teve a parte da garganta bastante queimada, mas não conseguiu nada de substancioso para avançar nas investigações.

A prima Paola diz que, depois de uma melhora no quadro, Jamille até conseguiu contar que Emir fez uma série de acusações, ela respondeu algumas, mas resolveu ir dormir. Depois, só lembrava de ter acordado com o corpo em chamas. A intenção era que ela melhorasse, tivesse alta e pudesse prestar um novo depoimento na polícia, mas não deu tempo.

“Minha prima era uma menina que só teve dois namorados na vida dela. Vivia para estudar, trabalhar e cuidar das filhas dela. Era mestre em Língua Portuguesa, sempre batalhou pelo próximo, para fazer do mundo um lugar melhor e termina assim? Queremos saber o que aconteceu. Queremos justiça por Jamille”, diz.

Polícia diz que encaminou caso para o MP

O g1 entrou em contato com a Polícia Civil, que afirmou que o caso foi registrado como tentativa de feminicídio, mas que o procedimento foi encaminhado para o Ministério Público.

"De acordo com a 128ª DP (Rio da Ostras), o caso foi registrado como tentativa de feminicídio. No entanto, a perícia realizada no local verificou que o incêndio foi causado por um carregador de celular. Não há indícios que corroborem a tese de feminicídio. Além disso, a própria vítima não atribuiu o fato ao investigado. A investigação foi concluída e o procedimento encaminhado para o Ministério Público", informou.

Paola também questiona a versão do carregador de celular, uma vez que as tomadas da casa estavam isoladas para uma pintura que estava sendo feita.

"O carregador estava levemente queimado, mas as tomadas estavam isoladas. Então onde esse carregador pegou fogo?", questiona mais uma vez.

Imagem do carregador de celular: chamuscado, 
mas não destruído para um incêndio, segundo a família 
Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Rapper e ativista

Antes de se mudar para Rio das Ostras, onde atuava como professora, Jamille Suarhs tinha um grupo de rap e atuava no Observatório das Favelas.

No Negaativa, ao lado das cantoras Mary Juana e Mônica, Jamille falava sobre problemas sociais que atingem os jovens da periferia como pbreza, racismo e opressão. Em 2009 foi indicado ao Prêmio Hutúz de 2009 na categoria “Melhores Grupos ou Artistas Solo Feminino da década”.

Por Eliane Santos, g1 Rio

Postagem Anterior Próxima Postagem